V.,
Fiz alguns rascunhos, todos nessas
linhas cheias de pedras e luas que atravessam meu corpo frio. Nenhum
deles foi bom. Definitivamente não sei lidar com as palavras. Sei
apenas que deves esperar esta carta como quem espera a resposta de um
oráculo. Envio-lhe, portanto, este tíbio escrito, cheio de erros,
raso de esperanças, pouco resolutório. Unicamente, envio-lhe.
Gostaria que não enchesse os espaços
dos pulmões com vontades de respostas. Não com as respostas que
esperas de mim. Sou um ser tão ocupado em não ser. Em vagar pelo
nada. Em criar ponto no caos. Suas perguntas, suas respostas.
Guio-lhe para que não caia, apenas. Não caia com as culpas que
carregas nas costas, como se houvesse peso tamanho que pudesse
redimir dos males que não são teus.
Saiba, menina. Saiba que não tenho o
intuito de cativar ninguém. Sou monstro, e as pessoas insistem em
chamar de deus. Obedeço a criação. Sigo dando voltas e subindo as
montanhas invisíveis. Nunca cativei ninguém.
Fora isso, sei que tens-te esforçado para ser certa. Sei que és pura confusão em corpo de ser humano. Eu
até achei que fosses um planeta pequeno quando te conheci. Essas tuas mudanças repentinas, uma hora claro, outra hora escuro –
cheia de tempestades. Uma hora repleta de gente, noutra, dizimando
cruelmente todas as que lhe habitam. Te considero.
Tenho um conselho míope para ti:
esqueças os seres humanos e não contribua para sua multiplicação.
Seja só. Seres humanos quando juntos são uma bagunça. Você
sozinha és terra firme. Esse teu planeta de universo próprio, cheia
de camadas, cheia de luas, de rotação lenta. Esse teu planeta que
não interage com o Sol.
Sejas só.
Saturno.
