sexta-feira, 27 de maio de 2016

V.,

Fiz alguns rascunhos, todos nessas linhas cheias de pedras e luas que atravessam meu corpo frio. Nenhum deles foi bom. Definitivamente não sei lidar com as palavras. Sei apenas que deves esperar esta carta como quem espera a resposta de um oráculo. Envio-lhe, portanto, este tíbio escrito, cheio de erros, raso de esperanças, pouco resolutório. Unicamente, envio-lhe.

Gostaria que não enchesse os espaços dos pulmões com vontades de respostas. Não com as respostas que esperas de mim. Sou um ser tão ocupado em não ser. Em vagar pelo nada. Em criar ponto no caos. Suas perguntas, suas respostas. Guio-lhe para que não caia, apenas. Não caia com as culpas que carregas nas costas, como se houvesse peso tamanho que pudesse redimir dos males que não são teus.

Saiba, menina. Saiba que não tenho o intuito de cativar ninguém. Sou monstro, e as pessoas insistem em chamar de deus. Obedeço a criação. Sigo dando voltas e subindo as montanhas invisíveis. Nunca cativei ninguém.

Fora isso, sei que tens-te esforçado para ser certa. Sei que és pura confusão em corpo de ser humano. Eu até achei que fosses um planeta pequeno quando te conheci. Essas tuas mudanças repentinas, uma hora claro, outra hora escuro – cheia de tempestades. Uma hora repleta de gente, noutra, dizimando cruelmente todas as que lhe habitam. Te considero.

Tenho um conselho míope para ti: esqueças os seres humanos e não contribua para sua multiplicação. Seja só. Seres humanos quando juntos são uma bagunça. Você sozinha és terra firme. Esse teu planeta de universo próprio, cheia de camadas, cheia de luas, de rotação lenta. Esse teu planeta que não interage com o Sol.

Sejas só.

Saturno.


quarta-feira, 13 de abril de 2016

Olá, Saturno.

Faz um ano desde a última vez que nos encontramos. Não sei dizer ao certo quais foram as grandes mudanças vivenciadas, cada dia tem sido sempre um passo adiante. Adiante, você sabe bem, a gente não retorna mais, como o combinado. 

Sei que ando desanimada para escrever, e faz tanto tempo que não o faço que até perdi a prática. Peço perdão caso não seja interessante, ou, caso grave, não te cative. Nunca tive a intenção de cativar ninguém, mas fiquei comovida com sua última presença. Tenho sido outra pessoa desde então. Depois que me tocou no rosto, com toda a sua luz estranha, tenho sido outra. Não uma outra que desconheço, mas uma outra que está muito próxima ao que sou, e deixei de ser por passividades. 

Entendi perfeitamente aquele aperto no peito, aquela vontade de gritar que eu chorei no seu colo sem perceber, Saturno. Criei um monte de confusão dentro de seus anéis, que eu achei até que iriam desaparecer e você iria ficar bravo comigo. Ainda bem que não, e a confusão voltou pra dentro de mim. Sou confusa mesmo, e isso já assumi pra mim. Assumir foi difícil, ninguém gosta de pessoa confusa, e dizem que as vezes é melhor fingir ser estruturado. Mas eu não estou estruturada ainda, sou do mar, a gente que é de água se estrutura com muita dificuldade, quando consegue.

A verdade: estou tentando me estruturar com o que tenho. E eu tenho muita coisa que eu nem sabia, tenho me enrolado toda. Mas mesmo assim, sinto que vale a pena ser diferente do que sempre te narrei. Aliás, daqui 29 anos quero que me veja bem. Quero que veja o quanto cresci. O quanto meu solo foi fértil e amado. Apesar da atmosfera inóspita e densa.

Um abraço, 
V.